“Pai dói céu, é o demo!” É assim que o atordoado Chico Bento revisto por Gustavo Duarte se expressa ao dar de cara com um alienígena dentro da cozinha de sua casa na terceira edição da série Graphic MSP em que jovens quadrinistas fazem releituras da Turma da Mônica. Em “Pavor Espaciar”, Chico é abduzido por aliens sinistros junto com seu amigo Zé Lelé , o porco Torresmo e a galinha Giselda.
Na edição anterior, “Turma da Mônica-Laços”, os irmãos Cafaggi colocaram a turminha em busca do desaparecido mascote floquinho,numa aventura com jeitão de filmes oitentistas como Os Goonies e O Clube dos 5. Na primeira da série, Magnetar, Danilo Beiruth imaginou o Astronauta adulto e melancólico numa aventura de autoconhecimento. Gustavo Duarte,por outro lado, é puro humor e velocidade. Em alguns momentos a história parece uma seqüência de fotogramas. Só por se tratar de um meio estático, criar uma narrativa tão ágil já denota enorme talento. Porque é preciso saber representar a velocidade dos personagens tão bem quanto conseguir mostrar só o essencial. Diálogos, quase não os há.
A rapidez da trama é tamanha que é preciso uma segunda leitura para pegar a enorme quantidade de referências a filmes ,quadrinhos e ao próprio universo de Maurício de Souza que forma espalhadas pela HQ. Ou mesmo para apreciar o cuidado com elementos visuais como a caracterização da cozinha, compinguim sobre a geladeira,paninho sobre o fogão, mobília antiga.
Um detalhe de sua inteligência narrativa: a cena em que Chico entra numa espécie de portal dentro de um avião desaparecido no triângulo das bermudas. Ele fecha a escotilha e descobre e cai para o vazio. Duarte economiza nos quadrinhos (só quatro) e usa o formato vertical da página para reforçar a sensação de movimento de queda.
A história, engraçadíssima, que envolve até transfusão de mentes(!!), pode ser resumida numa frase do Chico: “que surrear”...
Chico Bento- Pavor Espaciar tem 52 páginas e custa R$ 19,90
Quadrinhos em Foco
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
História do Hulk...sem Hulk !
Muitas vezes me pego pensando em como conseguem escrever histórias com o Hulk basicamente todo mês desde a década de 60. Ok, o pensamento é válido pra qualquer super-herói(não é a toa que as “surpresas” como um herói morrer vivem se repetindo) mas o Hulk pode render mais do que meia dúzia de boas histórias? É um cientista brilhante que quando fica nervoso vira seu perfeito oposto, um monstro irracional que arrebenta com tudo. Como é um monstro “do bem”, ele arrebenta tudo em termos. Não mata criancinhas nem pessoas inocentes, por exemplo. E que histórias podem ser protagonizadas por um monstro irracional ? Você coloca inteligência nele pra variar um pouco a história e o que mais? O roteirista Bruce Jones e o desenhista Stuart Immonen toparam o desafio de inovar a abordagem do Hulk e fizeram o óbvio(ainda bem): o protagonista da história passou a ser o Dr.Bruce Banner. É tão óbvio que a série de Tv dos anos 70 era centrada no cientista. Os fãs, no entanto, chiaram; queriam ver o de sempre: o Hulk arrebentando, lutando com outros monstrões etc. No entanto, com a sensibilidade de um bom roteirsta, Jones fez o Hulk, logo no começo, num ataque de fúria,arrebentar com uma cidade e vitimar um garotinho, o que leva Banner a viver em fuga e conviver com um misto violento de sentimento de culpa e ódio (do Hulk e de si mesmo). E claro que tem um punhado de gente interessado em captura-lo, o que movimenta a trama. Devido ao empenho de Banner em segurar seu lado monstro, Hulk raramente aparece e, quando isso ocorre, ele não é tão forte nem tão descontrolado. Na edição 2 de O Incrível Hulk, publicada pela Panini em março de 2004 ,passamos por 48 páginas extremante tensas e climáticas e sem que o monstrengo dê as caras. Os fãs de gibis,claro,odiaram e entupiam a sessão de cartas de reclamações. A história foi publicada originalmente nos EUA em 2003.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
A assinatura visual de "V de Vingança"
A máscara de Guy Falkes em V de Vingança virou um ícone. Onipresente , ela tem servido a revoltosos de todo tipo e lugar, seja a esquerda do ocuppy wall street seja a ultra-direita brasileira que segura cartazes de “queremos a volta dos militares” na Avenida Paulista . Como não podia deixar de ser, a parte ofuscou o todo e pouco se fala da graphic novel em si que muitas vezes só é lembrada como a obra que deu origem ao filme com Natalie Portaman.
Injusto afinal, como toda obra de Alan Moore, é de primeira grandeza e ,como vemos aqui, Moore nunca trabalha em parceiria com artistas fracos.
Visualmente a obra tem nítida influência do film noir (notada nos enquadramentos tanto quanto no uso de sombras expressionistas ) mas também características próprias macantes como mostrar só o realmente necessário em cada quadrinho.
A conseqüência disso é que nosso olhar muito raramente pode “passear” livre pela cena, ficando sempre confinado ao narrado . Confinamento aliás, reforçado pela arte-final de David Loyd cujo nanquim quase atropela o desenho .
Há também pouquíssimo espaço livre em cada página e pouquíssimo branco nos quadrinhos. Tudo isso somado e temos uma obra sufocante capaz de transmitir perfeitamente através de sua construção(tanto quanto pela trama) a idéia de opressão e obscurantismo denunciados por Alan Moore.
segunda-feira, 22 de julho de 2013
THE WALKING DEAD Nº 10
A edição de julho de Walking Dead é das melhores entre as dez já publicadas até agora numa série que coleciona momentos primorosos.
Desta vez a ousadia foi não mostrar nenhuma cena de violência e nem um zumbi sequer nas 24 páginas da história “Caminhos Trilhados”.
O que para o leitor que chega desavisado querendo ver sangue e vísceras pode ser frustrante, para os fãs da série é um deleite ver que o terror e a violência emergem não das imagens mas sim dos diálogos. O momento mais forte é a conversa entre Allen, personagem que na edição anterior havia perdido a esposa, destroçada por zumbis, e sua companheira de acampamento Andréia, preocupada com seu estado depressivo. A construção da página é simplória e os desenhos não tem encanto algum. A cena de Allen chorando,por exemplo, não comove nem quem derrama lágrimas com novela das seis. Mas o que teria tudo para ser o momento em que o personagem recebe uma lição de moral acaba sendo um espetáculo triste e niilista.
Segue transcrição de parte do diálogo:
Andréia- Quero que você pense nos seus filhos. Você tem que superar isso e ser forte por eles. Sei que está triste e tem todo o direito de estar, mas os garotos precisam de você. Não pode se fechar assim.
Allen (chorando)– O que? Olha a merda que está me falando! Superar isso? Parar de ficar trsite? Que tal dizer logo “largue de ser maricas” pra fechar com chave de ouro ? Acabei de perder a porra da minha mulher,sua putinha.Que direito tem de ficar discutindo a minha dor? Vai se foder!
Andréia - O que? Acha que eu não sei o que é perder alguém? Acabei de perder minha irmã!Acho que conheço um pouco sobre a dor. Sei exatamente pelo que está passando! Entrei em choque quando a Amy morreu. Não falei por dias...Quase enlouqueci. Você não pode se dar ao luxo.Ben e Billy precisam do pai agora. Estou apenas tentando ajudar, seu escroto.
Allen – Minha mulher acabou de morrer.
Andréia – E minha irmã morreu,Shane morreu e Jim morreu! Provavelmente meus pais estão mortos! Todos que eu conheci na vida devem estar mortos!(...)Seus filhos precisam que você reaja...e saia desse estado.Eles precisam de você! Pense neles!
Allen – Tudo o que eu posso faze agora é pensar neles!Foi a única coisa que fiz em dias!
Fico pensando neles crescendo sem a mãe...pensando neles envelhecendo...esquecendo como ela era...nem lembrando o rosto dela. É só nisso que eu penso e está acabando comigo!Então,sua vaca,não venha aqui tentar algo ou me dar conselhos. Você não sabe de merda nenhuma e não está me ajudando.Me deixe em paz.
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